Sexta, 22 Outubro de 2021
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Jorge Arlan de Oliveira Pereira
Professor e jornalista
Sociedade, comunicação e o poder da desinformação
27/07/2020

  Em termos informacionais, podemos dizer que vivemos tempos turbulentos. Eles expressam bem as características das sociedades atuais, nas quais praticamente nada se desenvolve em ritmo lento. Tudo acontece de modo rápido, apressado, ansioso, preocupado e até intolerante, sob a marca, principalmente, das reações automáticas, sem questionamentos, reflexões e compassos necessários à formação embasada de uma opinião.

  Para agravar, quase todo mundo tem a resposta pronta, engatilhada, a ser disparada nas mais diferentes direções contra alvos imprecisos e até desconhecidos. A sensação, muitas vezes, é de nos encontrarmos num cenário de guerra, em que as armas lançam projeteis informativos para acertar o coração da moral e a honra alheia. Sabe-se que uma mentira circula hoje, nas redes sociais, numa velocidade 70% mais rápida que uma verdade, pelo fato de conter elementos apelativos que despertam elevado interesse dos usuários.

  Temos numa ponta, o indivíduo, agora inteiramente midiático. Isso significa que ele não é mais apenas o elemento passivo de um processo comunicacional, como acontecia antes da intensificação das mensagens na internet, usando agora os mais diferentes recursos técnicos e sofisticadas plataformas. O próprio indivíduo, sacando de um celular smartphone, dispõe de sua própria mídia, tanto para acessar o que mostram os outros, como para mostrar aos outros o que pressupõe ser interessante.

  Na outra ponta, vemos as novas super mídias, que organizam e controlam a circulação das informações em nível mundial, caso do Google, Facebook, Whatsapp, Youtube, Instagram, Telegram e Twitter. Por dentro delas, milhões e até bilhões de pessoas, organizações, empresas, entidades, instituições postam dados e respectivos entendimentos. Muitos são os canais que se constituíram, por iniciativas individuais ou de grupos, de caráter amador ou profissional, e até pseudoprofissional. Não podemos esquecer as mídias tradicionais, rádios, televisões, revistas e jornais, que continuam tendo seus espaços junto ao público, além de também migrarem para a internet.

  Neste turbilhão, repleto de oportunidades de acesso, poderíamos pensar que a informação esclarecida, a consciência dos fatos, seria a marca registrada das sociedades. A impressão nítida, no entanto, é de que predomina o confuso, o inautêntico e a desinformação. As chamadas fake news se incorporam ao cotidiano. Organizam-se canais especializados na produção e distribuição de informações falsas, no intuito de confundir e assumir determinado protagonismo político. Os caminhos midiáticos se tornaram simultaneamente um dos mais eficazes caminhos de poder e ao poder.

  O componente do lucro passou a se sobrepor inteiramente ao sentido da informação como bem público, contrariando o previsto na constituição brasileira de 1988. Não significa que não existam uma série de ações de indivíduos e organizações no bom trato da informação. A constatação, porém, é de que estas iniciativas estão longe de representar o predomínio no ambiente comunicacional.

  Verifica-se, no Brasil, especialmente no espaço da internet, um dos casos mais incompreensíveis de desinformação, porque envolve um drama para a sociedade inteira, relativo à pandemia da Covid-19. Pessoas, sem nenhuma formação apropriada, elaboram e principalmente repassam receitas de como tratar a doença, destituídas de qualquer respaldo técnico. O mais impressionante é que encontram público para levá-las à sério a ponto de experimentarem os ditos tratamentos, além de indicarem a outros, num fomento da circulação daquilo que é falso.

  Chega-se ao ponto de que até autoridades públicas negam a ciência, pregando tratamento com produtos reprovados, em diversos testes, por organismos de saúde nacionais e internacionais. A pandemia deveria ser o laboratório da boa informação, em razão das consequências extremamente danosas para a sociedade, no plano sanitário e econômico. Nada mais deveria ser tão sensibilizador e eficaz, no chamado à responsabilidade comunicacional, do que um quadro dessa natureza.

  Diante disso, são pertinentes algumas perguntas: resolve-se o despropósito com leis restritivas? Como a sociedade pode estabelecer controles democráticos da informação? Como isso não caracterizar censura e ataque à liberdade de expressão? Resolve-se com educação para à vida comunicacional? Os meios de comunicação estão interessados em realizar um jornalismo efetivo? Qual o preparo do público para se relacionar com o jornalismo e contribuir para sua qualificação? Quais as possibilidades e limites das tecnologias da informação e da comunicação? Vivemos numa sociedade da comunicação ou da informação? 

  Assim, precisamos conversar sobre sociedade midiática. Este é um assunto que se torna, contraditoriamente, mais complexo e polêmico na mesma medida em que ganha contornos de consensualidade nos conceitos da grande maioria dos segmentos sociais. Dizer que nos encontramos na era da informação ou da comunicação para designar o atual estágio da sociedade virou senso comum nas rodas populares ou na academia. Confesso ser realmente muito difícil fugir desta conceituação, talvez nem haja necessidade de fazê-lo, mas tudo depende do sentido que atribuirmos à informação, à comunicação e à sociedade. 

  Vemos de imediato, como já observado, uma sociedade da preocupação, onde todos correm. O preocupar-se toma várias direções. Há os que simplesmente se preocupam; os que se preocupam com a preocupação dos outros; os que pretendem preocupar ou despreocupar os outros. Neste último caso, significa querer que os outros estejam despreocupados, distraídos em relação às transformações da comunicação e ao conjunto de interesses que as cercam. 

  Vemos a comunicação no centro de uma forte e atualizada discussão, justificando a tese levantada pelo estudioso, Jurgen Habermas, na sua Teoria da Ação Comunicativa, que coloca a comunicação como o terceiro pilar da estruturação social, ao lado da economia (produção) e da política (poder), determinando o compasso e a direção das transformações sociais. Habermas diz que a comunicação é anterior à economia e à política. Sem a primeira não haveria as outras duas. 

  Já o pensador, Comte-Sponville, compreende que a mundialização e a instantaneização da informação são extremamente positivas porque "aumenta a verdade disponível" e "aproxima os homens uns dos outros". Acredita que o mundo hoje, sem a imprensa, seria uma "nova idade média".

  Na discussão a respeito dos instrumentos de controle, fiscalização ou convencimento, em torno das questões comunicacionais, a melhor resposta ao abuso dos meios de comunicação parece que deveria partir do grande público, em processo organizado, para determinar o papel da mídia no espaço dos conflitos permanentes e mutáveis da própria sociedade. Os meios de comunicação deveriam estar submetidos às leis constitucionais como qualquer outro setor da sociedade, respondendo por seus erros e exageros.

  Para se fazer uma boa comunicação, não falta à sociedade suportes técnicos. A questão é outra. É de concepção. Trata-se do entendimento que os cidadãos tem de mídia e da amplitude dos seus conceitos sobre comunicação. A resposta depende do estágio organizativo que vive cada sociedade, do seu nível de interesse e dos recursos efetivos (culturais, políticos e econômicos) que dispõe para garantir democracia, liberdade de expressão e justiça social. 

  Para que esta possibilidade avance, os cidadãos precisam despertar para a compreensão dos emaranhados políticos. Compreenderem, por exemplo, as políticas de comunicação definidas no Congresso Nacional, pressionarem para reformulações conforme os seus mais elevados interesses.

  A sociedade não fará isso, porém, sem uma autocrítica sobre suas compreensões e práticas comunicacionais. É preciso superar uma rasa simplificação. Confunde-se informação (processo de transmissão do saber) com comunicação (processo de interação, em que um indivíduo compartilha com outro um pensamento). Na acepção do pesquisador, Adriano Rodrigues, “a comunicação depende de um número menor de informações relevantes com as quais fazemos comunidade, onde as coisas acontecem no tempo do encontro e do compartilhar da memória”.

  Nosso cotidiano depara-se e envolve-se hoje com a chamada sociedade da informação, na qual as possibilidades tecnológicas permitem não somente reproduzir, mas também “editar” e até “recriar” a realidade por meio de modernos recursos visuais e sonoros. Não é apenas a reprodutibilidade técnica no sentido de ampliar a divulgação das mensagens e sim de discutir a capacidade e o direito de interferência da realidade virtual na realidade real, ou seja, verificar o nível de interferência da mídia no conteúdo das mensagens originais, no ato de confeccionar a representação simbólica.

  Não vivemos, portanto, a sociedade da comunicação. Esta ainda precisa ser construída. Não acreditamos que ela se encontre perdida em algum lugar ideal do passado, mas precisa ser construída dentro dos conflitos permanentes das civilizações humanas, num processo em que os estudos científicos da área podem dar contribuições extremamente relevantes.

  Ao não adotarem uma atitude passiva diante da “inevitabilidade” dos caminhos midiáticos, os cientistas da área da comunicação, os empresários, os profissionais da mídia e o público (hoje também um produtor midiático) ajudam a responder as questões altamente relevantes da presença da comunicação (com todos os seus aparatos tecnológicos, fatores políticos e econômicos) na configuração da sociedade contemporânea, no mundo e no Brasil.

         
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