Sábado, 27 Novembro de 2021
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Jorge Arlan de Oliveira Pereira
Professor e jornalista
A Hipótese de Gaia e os Rios Voadores
30/06/2020

​O jornalismo se constitui de três gêneros fundamentais, os relacionados à informação, à interpretação e à opinião, todos legítimos na perspectiva de que este campo do saber, bem como sua dimensão profissional, venha a cumprir o papel que a sociedade lhe confere de ser um modo de conhecimento do mundo, ao revelar os fatos que determinam a dinâmica da realidade. Ao iniciar suas atividades, o jornal “O Âncora”  se propõe como um ponto seguro da notícia, ou seja, um espaço em que o produto noticioso oferecido ao público se caracterize pela adequada apuração dos acontecimentos e pela credibilidade.

​O elemento estruturante do jornalismo é a informação bem apurada, sobre a qual podem se assentar a interpretação e a opinião. Neste espaço, identificado como “coluna”, pretendemos contribuir na esfera da opinião, sempre referenciada em informações que nos permitam compreender e analisar aspectos relevantes da conjuntura e da estrutura social. A característica desta coluna será a da diversidade temática, sem se restringir a uma área específica. Vamos seguir, aqui, um certo jeito de o jornalista pensar e atuar, o de ser um “especialista em generalidades”, pela necessidade que sente de estabelecer relações entre assuntos relevantes, procurando vínculos entre as questões, num sentido interdisciplinar.

​Neste primeiro artigo, escolhemos tratar de aspectos relacionados ao meio ambiente. Assim, lembramos que o dia mundial do meio ambiente foi celebrado em cinco de junho, criado pela Assembleia Geral das Nações Unidas, na resolução XXVII, de 15 de dezembro de 1972, na Conferência de Estocolmo, na Suécia, cujo tema central se voltou ao Ambiente Humano.

​Considero o tema meio ambiente como um dos mais relevantes da atualidade, motivo de conflitos e de buscas de acordos no sentido de evitar o desequilíbrio do planeta. Minha impressão é a de que a natureza poderia ser classificada como a última instância para distinguir o real do irreal, a mentira da verdade, porque é o lugar concreto onde as ideias, uma vez postas em prática, se mostram coerentes ou incoerentes, viáveis ou inviáveis. Verdadeira prova dos nove.

​Tem sido uma orientação para os meus conceitos e posições na sociedade a chamada “Hipótese de Gaia”, hoje já admitida como “Teoria de Gaia”, uma vez que os seus pressupostos são passíveis de comprovação. É resultado dos estudos do pesquisador britânico, James Lovelock, desenvolvidos a partir de 1965 e que alcançaram o status de hipótese em 1979.

Na sua teoria, James Lovelock postula que a Terra (Gaia, para os antigos gregos) é um sistema complexo, integrado e autorregulado, em que os organismos vivos e seus ambientes físicos evoluem, sofrendo influências recíprocas que objetivam a preservação da vida. Lovelock afirma que “a Terra é um ser vivo do qual nós, humanos, somos o sistema nervoso”, um sistema que favorece à vida. 

​A conclusão do pesquisador é de que é a vida que renova sem cessar todas essas moléculas e afasta a Terra do equilíbrio químico visto em Marte e Vênus. Estes dois planetas, portanto, estão mortos, enquanto a Terra está viva. É a ação organizadora da vida que livra a Terra da inércia provocada pelo equilíbrio químico quase absoluto. 

​Parece paradoxal, mas são os movimentos constantes de reequilíbrios dos seres entre si que proporciona o equilíbrio ambiental da Terra. Estes movimentos são a própria dinâmica da vida. O equilíbrio da Terra é decorrente de desequilíbrios e reequilíbrios. O equilíbrio ambiental do nosso planeta, assim, requer uma compreensão e um respeito profundo à vida, nas suas mais diferentes formas e expressões.

​Um exemplo extraordinário de como o nosso planeta vive da interligação de todos seus elementos e de seus micro ambientes é o fenômeno dos “Rios Voares”, uma manifestação vigorosa e criativa da natureza que, se não compreendida pelos seres humanos, pode resultar em desequilíbrios de alto impacto, impedindo as ações naturais que restauram o equilíbrio ambiental.

​Conforme estudos do pesquisador Antonio Donato Nobre, vinculado ao Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE), com apoio da Fundação de Amparo à Pesquisa de São Paulo (Fapesp), os Rios Voadores podem ser caracterizados como um autêntico milagre da natureza, capaz de proporcionar benefícios em regiões distantes de seu ponto origem.

​Os Rios Voadores são a formação de um volume imenso de águas a partir das árvores da floresta Amazônica. Estas árvores grandes, com copas de 20 metros de diâmetro, de raízes muito profundas, bombeiam água dos lençóis freáticos a 50 ou 60 metros abaixo do solo. Puxam cada uma delas cerca de mil litros por dia, chegando, na soma das árvores da mata, a um volume de 20 bilhões de toneladas de água. Para comparar, o rio Amazonas, responsável por 20% de toda a água doce que chega nos oceanos do mundo inteiro, coloca 17 bilhões de toneladas no mesmo período. Portanto o rio de vapor é o maior que o rio Amazonas.

​As árvores apresentam a propriedade de liberarem compostos que evaporam a água e a lançam na atmosfera. Essas partículas, conhecidas como aerosois atmosféricos são chamados também de condensações de nuvens, ou seja, a floresta Amazônica fabrica sua própria chuva. Além de produzir a umidade para si, a mata produz o fenômeno que passou a ser conhecido popularmente por Rios Voadores. 

​São eles que explicam o mistério da região que vai de Cuiabá a Buenos Aires e de São Paulo à Cordilheira dos Andes ser verde e úmida. Esse quadrilátero geográfico corresponde a 70% do Produto Interno Bruto (PIB) da América do Sul, onde se concentram hidrelétricas, agricultura, indústria e grandes centros urbanos. Acontece um transporte dos rios aéreos de vapor que a Amazônia exporta e faz com seja contrariada a tendência natural desse quadrilátero ser deserto. Na mesma faixa do globo, nas chamadas latitudes médias em relação à linha do Equador, se situam os principais desertos do mundo.

​A floresta Amazônica funciona como uma usina de serviços ambientais, o maior parque tecnológico do planeta. Participa de um funcionamento interligado da natureza, na linha do que a Teoria de Gaia chama de a Terra como um imenso organismo vivo. Dessa forma, a maior parte da umidade que chega às regiões Centro e Sul do Brasil, componente fundamental para sua viabilidade climática, provém da Amazônia.

​A falta de conhecimento e de consciência sobre este e outros fenômenos, no entanto, tem levado os sistemas políticos e econômicos a tratarem a floresta Amazônica de modo agressivo. Acentua-se, como nunca o desmatamento, a fim de industrializar a madeira, estender áreas agrícolas e abrir espaço para os garimpos. Não há a percepção de que a consequência certa da perda da floresta será instalação de um clima inóspito em amplas regiões do país. A perda será imensa em todos os sentidos. A floresta estaria sendo destruída sem que tivesse tempo de propiciar uma série de outros benefícios, viáveis desde que sejam realizados estudos para sua exploração saudável, em harmonia com ela, especialmente na oferta de matéria renovável (recursos hídricos, da fauna e da flora) para inúmeros fins, como, por exemplo, o fornecimento de princípios ativos dos medicamentos do futuro.

​A situação atual requer uma tomada de consciência e adoção das respectivas políticas capazes de reverter o rumo das coisas. Nesse sentido, deveríamos aprender muitos com os indígenas, começando por tratá-los com mais respeito e justiça, e depois captando um pouco da sensibilidade deles para olhar a Terra como a “mãe natureza”, um imenso e complexo ser vivo, permeado de fios, visíveis e invisíveis, de uma bela e criativa interligação.

 

         
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