Quarta, 27 Outubro de 2021
PUBLICIDADE
Dom Lindomar Rocha
Filósofo e Teólogo
A necessária arte da esperança
28/06/2020

De tempos em tempos somos desafiados a dar razão de nossa esperança! Entretanto, algumas vezes e algumas gerações são mais testadas e provadas em encontrar essas razões.

De repente nos vimos submergidos num mundo de acontecimentos que começaram a nos despertar para a dúvida a respeito de nosso futuro, de nosso desenvolvimento, e, até mesmo, de nossa sobrevivência.

A democracia começou a dar sinais de cansaço pelo mundo no início deste milênio. Governos e países tradicionalmente inclusivos e humanistas deram guinadas radicais para o fechamento de suas fronteiras e exclusão de cidadãos estrangeiros; governos com visões restritas e demasiadamente particulares do mundo despontaram, e surgiram cidadãos que começaram a defender publicamente ideias que, até pouco tempo, eram consideradas vergonhosas e obscuras.

As crises econômicas recorrentes também questionam profundamente o sistema de produção que garante o desenvolvimento social dos indivíduos.

Por fim, no último ano desta segunda década, a humanidade foi atingida por um vírus universal que ameaça e ceifa a vida aos milhões.

Tudo parou de uma hora para outra. O que parecia impossível aconteceu. As maiores economias estacionaram, os aviões não decolaram e o comercio fechou.

Atingidos por dúvidas metodológicos e falta de preparo vimos todo tipo de reação e respostas. Mas, se pudéssemos sintetizá-las, poderíamos fazer em dois grupos: os cautos, que esperaram uma resposta dos especialistas da saúde e os ideólogos, que ofereceram saídas e respostas rasas até a rejeição total dos fatos, negando completamente a periculosidade da situação.

Este último acontecimento levantou uma questão filosófica de relevância, isto é, se a modernidade chegou agora ao seu final e para onde devemos dirigir as nossas esperanças?

A primeira questão vem se delineando já há muito tempo. Relacionado ao nascimento da modernidade no século XVI, ela se originou de três fatores ocorridos durante quase um século, e tem seus três grandes expoentes na quebra de unidade católica no Ocidente, a descoberta das Américas e o nascimento da ciência moderna. Sobretudo, este último foi o fator de esperança para a mentalidade nascente. O moderno pretendia alcançar um nível de precisão e adequação muito maior do que aquela oferecida pela a religião. A modernidade nutre expectativa de que os indivíduos poderiam se entender através da razão. Se a razão fosse capaz de explicar todos concordariam, e, assim, não haveria mais motivo para conflitos e discordâncias absurdas.

Foi basicamente este pilar que ruiu no início do século passado. As guerras se valeram da ciência para se tronarem ainda mais devastadoras e se aperfeiçoaram no decorrer do tempo.

Deste modo, muitos se apressaram a conclamar o fim da modernidade e a decretar que a ciência não era mais capaz de restaurar a esperança e definiram a nova época como pós-modernidade. Mas essa definição não foi acolhida pelos filósofos, que acreditaram ser prematura descrever essa nova fase. Mas ficou cada vez mais patente que os indivíduos não se guiam somente pela razão. Os sentimentos e juízos restritos e limitados do mundo eram muito mais resistentes do que se pensava.

Três fatores dificultaram a renovação da esperança na modernidade, e também se articularam ao longo de um século. Além das guerras, já citadas, o limite da produção e a impossibilidade de um progresso infinito baseada no consumo, estabeleceu a dificuldade de se organizar uma sociedade harmônica e alinhada com os seus próprios objetivos.

Por fim, a questão auto limitativa do consumo, revelou-se ainda mais eficaz nos problemas ecológicos em voga em nosso tempo. A alteração do eco sistema e o conhecimento adquirido do mundo, nos colocaram em situação de extrema fragilidade. Parte deste conhecimento advindo da própria ciência. O sentimento de urgência escanteia a esperança para um lugar secundário da vida.

Entretanto, sem esperança não se vai longe. Ela é a virtude que nos ajuda a superar desafios maiores do que nós mesmos. A esperança é a amarra que nos seguramos para nos mantermos em vida e de prontidão para desafios. Mesmo diante das escassas possibilidades é necessário encontrá-la logo.

Assim sendo, e enquanto a esperança é vital para todos, temos de reinventá-la e reaprendê-la de novo como bem nos alertou são Pedro: “estai sempre pronto para dar da vossa esperança” (1Pe 3,15). 

         
PUBLICIDADE